6.8.10

Cá entre nós

Te desejo o melhor e o pior.
Porque o melhor já te dei.
E o pior não mata.
Te desejo o fácil e o difícil.
Porque o fácil é natural pra você.
E o difícil faz evoluir, entende?
Te desejo, também, o bom e ruim.
Porque o bom é mamão com açúcar.
E o ruim só existe pra gente saber que o mamão é bom.
Te desejo de tudo um pouco.
E um pouco de nada também.
Porque a vida é um pouco de silêncio, às vezes.
Te desejo o que eu nunca desejei.
Que é ruim, eu sei.
Mas que é bom também.

19.7.10

Por mais que voce me odeie, te guardo no lugar mais especial que eu tenho.
Por mais que voce nao queira ouvir meu nome, eu rezo pro seu todos os dias.
Por mais que dois oceanos nos separem, todos nao lavam minha culpa.
Por mais que vc tente me esquecer, eu lembro do seu rosto todo dia.
Por mais que o teclado nao tenha acento, eu escrevo mesmo assim.
Por mais que tudo, mais que nada...

18.7.10

Talvez?

Qual o tamanho do que a gente sente?
Tem tamanho?
Ou tem cor?
Sabor, talvez?
Tem textura?
O que e' que a gente sente?
Quanto tempo dura?
Como se fala sobre o que a gente sente?
Deve-se falar?
Ou deve-se sentir o que se sente?
E quando teclado nao tem acento?
o que a gente faz?

13.7.10

Travado.
Bloqueado.
Encarcerado.
Impedido.
Lacrado.
Fechado.
Restrito.
Cercado.
Acuado.
Autuado.

9.6.10

A gente esquece de umas coisas na vida.
Vira e mexe esqueço do meu blog.
Um espaço tão importante.
Prometo melhorar.
Tô começando uma nova fase.

15.3.10

Perguntas

ELA: Por que você chora tanto?

ELE: Por que você não chora?

ELA: É por mim?

ELE: O que você acha?

ELA: Você acha que eu mereço?

ELE: O quê?

ELA: Sua dor?

ELE: Você acha que é só dor?

ELA: O quê mais tem?

ELE: Você acredita em amor?

ELA: Você sabe o que eu já passei?

ELE: Você sabe o que eu já passei?!

ELA: Você já amou?

ELE: Desse jeito?

ELA: Qual jeito?

ELE: Você não sabe o que é amor, mesmo?!

ELA: Será que é do jeito que eu penso?

ELE: Você não acha que pode ser do jeito que é?

ELA: Por que você tá chorando de novo?

ELE: Por que você não chora?

Terremoto/adaptação

Discutamos o processo de adaptação:

À primeira vista, me parece que se trata de um tipo de acomodação à uma nova situação ou condição.
O que se deve analisar é como se dá esse processo: de maneira radical ou gradativa.
O tempo, sem dúvida é essencial para a concretização do fenômeno adaptação.
Cabe, aos lados interessados, determinarem em quanto tempo se dará tal mudança.

Efeitos colaterais são previstos e aceitáveis, dependendo da magnitude do caso.
Adaptar não é fácil.
E nunca será.
Como adaptar-se à algo novo sem perder a identidade?
Talvez seja a maior questão:
Mudar, preservando a essência.

Mudança pressupõe movimento.
Mas também não quer dizer que movimento seja absolutamente benéfico.
É importante destacar a bilateralidade das coisas.
O movimento pode ser catastrófico, dependendo das condições que acontecer.
Um terremoto.

A Terra está tremendo.
Meu coração está tremendo.
Movimentos acontecem.
Bons e ruins.
O pensamento não estabiliza porque o chão não pára.
Preciso chorar os mortos e salvar os próximos.
Há muito trabalho à fazer.
Só espero não ser engolido por um buraco.

10.2.10

Quanto um homem pode viver coisas que não viveu?
Quanto tempo ainda vou imaginar vidas que talvez não possa viver?
Quantas histórias bastam?
Qual a medida do que se sente?
O que se faz com o que se sente?
Guardar na gaveta, talvez...



3.2.10

Um dia quero ter uma adega.

Eu vi

Vi lágrimas lindas hoje:
No rosto.
No colo.
Na alma.
Bonito quando o corpo não aguenta e transborda.
Quando a gente não cabe mais num corpo.
É bonito.
É bonito ver a alma se transformando em lágrima.
Eu vi.

31.1.10

Por que?

Assim?
Desse jeito?
Não pode ser diferente?
É difícil?
Pra quem não é?!
E agora?
Tô viajando?
Tô pirando?
Talvez?
Você não diz nada?
O quê eu faço?
O que eu fiz?
O quê eu deveria ter feito?
O que eu tô fazendo?
O quê eu vou fazer?
Faço ou não?
Sim?
Não?
Pra onde agora?
Pra quê?
Por que assim?
Por que assado?
Terça?
Quinta?
6 meses?
O quê tá acontecendo?
Acabou?
Tá começando?
Não vai falar?
O quê aconteceu?
Eu tô errado?
Onde você tá?
E eu?
Como?
Onde?
Quem?
Vai ser assim?
Sempre?
De vez em quando?
Não vai responder?
Eu mereço?
Pra onde?
Ahn?!
Vai?
De novo?
Não dói?
Desse jeito?
Você quer assim?
Você deseja assim?
Ou não quer?
Não sabe?
Quem sabe?!
Eu não?
Não consegue?
Não pode?
Não tem?
O quê você quer?
Não sabe?
Escolheu?
Não?
Vai escolher?
Não sabe?
Quer?
Não quer?
Tô pirando?

Não precisa responder.

O Silêncio...

...pode ser sinônimo de paz ou guerra.
Às vezes, ele tá recheado de perguntas sem respostas - e perguntas sem respostas levam ao confronto.
A atmosfera da paz é constituída de respostas. Nem sempre boas, mas respostas.
O silêncio é confuso.
Confunde a gente.
O silêncio machuca.
Fico pensando nas vezes que silenciei - quanta maldade!
O silêncio é uma faca pontuda prestes a ser enfiada na base da nuca.
O silêncio presupõe barulho: interno.
É inferno também.
O silêncio não é fácil.
Preciso de um pouco de barulho.

29.1.10

A Garota de Vênus - Parte 6

Foi mais um dia comum.
Através do furo no vidro do meu guichê, eu via dezenas, às vezes, centenas de pessoas, enfiarem seus documentos e boletos para que eu autenticasse.
Não é dos melhores trabalhos do mundo, mas pelo menos tenho assistência médica, vale refeição, vale transporte e um salário que dá pra pagar minhas contas e alugar uns filmes nos fins de semana.
Ah, e o banco tem um clube muito legal também.

Como eu tava dizendo: um dia comum.
Cinqüenta pessoas na fila e minha sinusite atacada pelo ar condicionado.
- Trinta e oito reais, senhora – disse sem olhar pra ela.
- Só isso, sua peste?
Silêncio.
Minha coluna ficou tão gelada quanto o palito de um picolé.
Não olhei.
Na hora pensei que pudesse estar louco.
Lembra quando eu disse que talvez estivesse esquizofrênico?!
- Sim, senhora – respondi secamente.
- Cacete, as coisas são tão baratas aqui na Terra. Em Vênus tudo é muito mais caro...
Olhei pro lado tentando buscar ajuda dos meus colegas de trabalho, mas todos sempre estão tão compenetrados em suas funções que é difícil até perguntar as horas.
- Será que eles vão ao banheiro? Eles almoçam? Como eles podem gostar tanto desse trabalho? – me perguntei, esquecendo por um segundo o que estava acontecendo.
Voltei meu olhar para o boleto de trinta e oito reais.
Fiquei em silêncio sem olhar pro vidro do guichê: olho no boleto, olho no monitor, olho no boleto, olho no monitor. Isso virou um mantra pra mim nesses poucos segundos.

De repente, a mão linda que um dia foi uma asa, invadiu a fresta abaixo do vidro e empurrou três notas de dez, uma de cinco e uma de dois reais até minha mão.

Um leve toque e pronto:

Minha coluna que havia se tornado um palito de picolé, começou a pegar fogo como aquelas cruzes onde queimavam as bruxas da Idade Média. Meus olhos começaram a arder tanto que achei que fosse chorar. O suor frio que descia da minha nuca em contato com a minha coluna em chamas proporcionava o maior show pirotécnico de todos os tempos. Meus sapatos pareciam que iam fugir, tamanho o tremor dos meus pés. Minha perna ficou tão mole que achei que só sairia daquela situação numa maca.
E tudo isso só porque ela encostou sua mão na minha.

Uma vez eu li que todo herói tem medo. A coragem é o enfrentamento do medo.
É claro que eu estava com medo.
Mas nunca fui um herói.

Mas algo em mim, que não sei explicar o que é, forçava meus olhos em direção ao vidro. Um força sobrenatural que nunca havia sentido antes.

Quando vi já foi.

Meus olhos pousaram naquela figura magnífica de dois metros de altura, com aquele cabelo de fogo que queimava minhas pupilas. A mesma imagem divina que eu tinha visto na beira da minha cama alguns meses atrás.

De repente, tudo escureceu.
E na escuridão só pensava uma coisa: "falta um real, senhora..."

22.1.10

A Garota de Vênus - Parte 5

Enfiei a chave na porta depois de quatro tentativas, tamanha era minha ansiedade.
Quando abri, ela não estava.
Como assim?
Olhei para os dois lados da rua e nada.
Quando ouço:
- Aqui, sua peste!
Estava na janela do meu quarto.
Peste?! Ela me chamou de peste.
Pode até parecer estranho mas eu gostei. Achei que tinha a ver, não sei porquê.
Subi e quando entrei em casa, cadê?!
Já sei, quer brincar.
- Deve estar escondida – disse alto, pra que ela entendesse que aceitei a brincadeira.
Atrás da porta: não.
Ao lado da geladeira: não.
No banheiro: não.
Debaixo da cama: não.
Em cima do guarda-roupa: não.
Atrás do sofá...

Sumiu.
E seus sapatos? Onde estão? Sumiram.
- Não entendo – Pensei confuso.
Olhei pela janela novamente: nada.

De repente, me olhei de fora e vira que papel ridículo tinha feito.
Falei com ninguém? Tomei uma sapatada nas costas de ninguém?
Esquizofrenia?
Fiquei preocupado.
Enfim, ela não estava lá.
Devia estar sonhando acordado.

10.1.10

A Garota de Vênus - Parte 4

Já tinha completado quase um mês que tudo tinha acontecido.
Mas pra mim parecia uma ano ou mais.
Entendi a teoria da relatividade assim.
Tentava à todo custo me encher de coisas pra fazer. No geral coisas sem importância.
Só pensava em dormir. Só pensava em sonhar. Queria que tudo aquilo acontecesse de novo.

Tava sentado no computador, pensando sobre essas coisas, quando senti uma pancada aguda nas costas - nesses tempos violentos só me veio à cabeça que teria sido atingido por uma bala perdida.
Olhei pro chão e vi um sapato de salto alto. Olho pra janela em tempo de ver a cortina balançando sugerindo que o sapato passara por ali.
Subitamente corro até a janela pra descobrir quem foi o autor do “disparo”, ou autora, claro.
No sol escaldante das duas da tarde, lá embaixo, na calçada, estava a garota de Vênus de braços abertos, olhando pra mim, com um magnífico e gigantesco sorriso tipo “fatia de melancia”.
Não estava dormindo.
Me belisquei.
Não tava mesmo.
Era dia e ela estava ali na minha frente.
- Não vai abrir a porta? – Perguntou, ainda sorrindo.
Não consegui responder e saí correndo procurando a chave.
Ai!
Senti uma pontada nas costas.
Era a sapatada da venusiana.
Não a mesma. Outra sapatada.
Agora ela estava descalça.

Sorri e continuei à procurar a chave.

Esqueci...

...de pedir paz no pacotão de ano novo.

8.1.10

A Garota de Vênus - Parte 3

Nunca lembro dos meus sonhos.
Tenho algumas lembranças vagas de alguns sonhos de infância, mas picotados ou fragmentados.
Jurava que o encontro com a garota de Vênus tinha sido realidade.
Me lembro de todas as sensações: do vento no rosto, do suspiro da queda, de cada detalhe de seu corpo maravilhoso.

Mas quando abri o olho, tava deitado na porra da minha cama.
Olhei pro relógio e fazia dez minutos que tinha ido deitar.
Dez minutos!
Impossível viver tanta coisa, tão intensamente em dez minutos.
Só podia ser um sonho.
A tristeza invadiu meu corpo pelas veias como se fosse um contraste que aplicam quando vamos fazer aquele teste do estômago.
Que merda!
Foi um sonho.
Eu sempre desejei lembrar dos meus sonhos, de todos os seus detalhes, dos significados.
Ficava com inveja das pessoas que mostravam seus caderninhos com os sonhos escritos como se fossem roteiros de cinema. Cada detalhe. Cada cena linda.

Tinha que acontecer comigo?
A coisa mais importante que já aconteceu na minha vida foi sonho.
Um sonho. Detalhado.
Não existem: garota de Vênus, vale, asa de boeing, leitura de mentes.
Nada.
Foi só um sonho.

Levantei e fui tomar um copo d’água.
Precisa fazer algo.
Mas não me vinha nada na cabeça.
Só sentia as sensações me atropelando sem piedade, enquanto não encontrava uma porra de um copo limpo na pia.
Peguei um copo com resto de iogurte e enfiei na torneira. Não importava que estava sujo. Nada importava.

E por um momento desejei não lembrar dos sonhos...